
Queria ser como os poetas, que transformam sua dor em arte. Ou como os músicos, que se fazem eternos mesmo com sua tristeza. Quem me dera até mesmo se soubesse desenhar, ou pintar, ou esculpir, tricotar. Qualquer coisa em que eu pudesse extravasar meus sentimentos.
Mas não fui abençoada com dom artístico algum.
E as minhas dores preciso enfrentar sozinha. Quieta. Num canto. Porque não encontrei uma válvula de escape adequada. Às vezes, essa dor se transforma em raiva, e aí outros sofrem junto comigo. Mas isso não alivia. Só piora.
Preciso de novos ares, mudanças. A carga está a cada dia mais pesada, e não sei até quando vou aguentar.
Meu pai sempre diz que a vida é dura pra quem é mole. E eu nunca fui mole. Mas acho que agora a vida endureceu demais comigo.
Não sei quando foi que me perdi de mim mesma, quando fui abduzida por este mundo ingrato.
Sei que me sinto sufocando, e preciso muito respirar. Preciso ter liberdade para ser, agir, pensar, falar.
Não sei viver enclausurada num mundo de amargura e falsidade. Não sei pisar em ovos. Meus passos sempre foram largos, rápidos e firmes.
Tenho buscado alternativas, procurado uma saída, mas a luz no fim do túnel ainda parece muito distante.
Enquanto eu era só uma rebelde sem causa, estava tudo bem. Mas minha rebeldia se esvaiu, e as causas hoje são muitas...